Patricia Lages Medo de ser roubado é preconceito e ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal

Medo de ser roubado é preconceito e ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal

Narrativas inacreditáveis fomentam ressentimento e inveja, mas sempre travestidas de virtudes e invertendo valores. Entenda

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Certas narrativas sobre violência são muito absurdas

Certas narrativas sobre violência são muito absurdas

Arquivo/Agência Brasil

Que o mundo está mudando para pior em diversos aspectos você já sabe. Também não é nenhuma novidade que os valores estão se invertendo, afinal, a cada dia que passa, o errado é visto como certo, enquanto o certo é ridicularizado. Mas, mesmo diante disso tudo, há certas narrativas que, de tão absurdas, ainda conseguem nos surpreender.

Não quero aqui atacar nem criticar um colega de profissão, mas ler o artigo de Leonardo Sakamoto “Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal” é tão surreal que tive de ler várias vezes para ter certeza de que não estava delirando. O restante do artigo só aumentou a minha incredulidade.

“Os arrastões em restaurantes chiques na capital paulista já tiveram uma consequência, além de aumentar o número de seguranças privados: estão aflorando o que há de pior na elite bandeirante”, diz o primeiro parágrafo.

Esse “pior” seriam “bobagens e preconceitos” ditos por pessoas que vivem na cidade de São Paulo e que se sentem inseguras ao sair para jantar em bons restaurantes. Seguem alguns trechos do artigo, extraídos da coluna de Mônica Bergamo:

“São Paulo ‘tá um porre total, um tremendo baixo-astral’. Desde que começou a onda de arrastões em restaurantes da cidade, a socialite e tradutora Alexandra Silvarolli, a Alê, mudou a sua rotina. ‘Tô jantando mais cedo. Vou às 20h30 e me pico do lugar às 22h30.’ Ela também adotou uma política de redução de danos quando sai: ‘Tiro minhas joias, total’".

"'É um absurdo você ir a um restaurante e pensar que pode ser metralhada. Teve arrastão em vários que a gente frequenta. O La Tambouille… Acho absurdo, surreal', diz Talita de Gruttola, voluntária no Hospital do Câncer.”

Além de taxar os comentários como “discurso bisonho”, preconceito e ostentação, Sakamoto destaca que ele — provavelmente uma pessoa muito melhor do que as socialites paulistanas endinheiradas — não sente medo do que está acontecendo na cidade:

“Não tenho medo de ser assaltado em meu carro porque não tenho carro. Não receio que levem minhas jóias (sic) ou meu relógio caro porque não tenho relógio. Não fico com pavor de entrarem na minha casa e levarem tudo porque meu bem mais precioso é um ornitorrinco de pelúcia. Não me apavoro em andar na rua à noite a não ser por conta do risco de chuva. E por mais que vá a bons restaurantes de vez em quando, devo ressaltar que nunca fui assaltado em nenhuma barraca de cachorro-quente… Acho que já deu para entender o recado. Não tenho medo da minha cidade porque, tenho certeza, ela não precisa ter medo de mim”.

Deu para entender o recado, sim: só tem medo desse tipo de violência quem tem algo a perder, quem tem bens valiosos, quem trabalha e tem um padrão de vida melhor do que o da maioria, mas que, no fundo, não deveria ter nada.

Deu para entender que essa gente de “discurso bisonho” merece ser roubada porque é “preconceituosa”. E mais: pessoas assim merecem ir para a cadeia pelo mais novo crime que “deveria ser previsto no Código Penal”: ostentação.

Enquanto isso, os verdadeiros criminosos são tratados, mais uma vez, como nada além de vítimas: “Mais do que uma escolha pelo crime, a opção de muitos jovens pelo roubo é uma escolha pelo reconhecimento social. Um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida. Não defendo essa opcão (sic), mas sabemos que, dessa forma, o jovem pode ajudar a família, melhorar de vida, dar vazão às suas aspirações de consumo — pois não são apenas os jovens de classe média alta que são influenciados pelo comercial de TV que diz que quem não tem aquele tênis novo é um zero à esquerda. Ganhar respeito de um grupo, se impor contra a violência da polícia”, diz o artigo.

Quase fiquei com pena desses “jovens” que arriscam suas vidas para ajudar a família, mudar de vida e para não se sentirem um zero à esquerda nessa sociedade capitalista horrorosa (contém muita ironia). 

Essa é uma fala que defende o criminoso, sim, que fomenta o ressentimento dos mais pobres contra os mais ricos (como se fossem os culpados pela pobreza no país) e que trata as vítimas como pessoas fúteis e, inacreditavelmente, como criminosas. Além de tudo, a narrativa fomenta a inveja em sua plenitude, ou seja, não se trata apenas de desejar ter o que o outro tem, mas, sim, de desejar que o outro não tenha.

Não vou dizer que nada mais me surpreende porque nunca, jamais e em tempo algum vou me conformar com esse tipo de discurso. Espero que você também não.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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