Patricia Lages 'Teatro das tesouras' no país onde não havia oposição

'Teatro das tesouras' no país onde não havia oposição

Divisões dos mesmos grupos políticos apenas se alternavam no poder com promessas de mudanças, mas mantendo o país na mesma

Marcello Casal Jr/10.mar.2003/Abr

Para entender a expressão “teatro das tesouras” é preciso analisar as características do objeto em si: duas lâminas idênticas, porém espelhadas, que só funcionam em conjunto. A aplicação no campo político vem desde a criação da União Soviética, quando Lênin dividiu um mesmo grupo político em duas frentes, criando a ilusão de que se tratava de forças opostas.

Com isso, os grupos iam se alternando no poder, passando a impressão de mudança e renovação política. Porém, como os objetivos eram exatamente os mesmos, ainda que houvesse pequenas diferenças nos métodos, nenhuma mudança acontecia de fato.

Para que a estratégia funcione, essas frentes dividem a tesoura, fazendo com que o eleitor só consiga enxergar as lâminas separadamente. Dessa forma, a população crê que existe oposição, mas não percebe que, na verdade, as lâminas fazem parte de um mesmo instrumento e que funcionam trabalhando em conjunto.

Essa é a estratégia que vem sendo utilizada no Brasil há décadas: um verdadeiro teatro, onde os atores fingem ser adversários, prometendo apresentar ao público uma peça diferente, mas que, ano após ano, apenas alternam seus papéis, mantendo a mesma história. É por isso que, mandato após mandato, os políticos trocam de posições, mas a história é a mesma.

Prova disso é a união de “ex-adversários” que agora aparecem lado a lado, de mãos dadas no mesmo palanque, revelando que jogam no mesmo time e que jamais foram opositores. Um exemplo claro é Geraldo Alckmin, que num passado não tão distante chamou Lula de bandido que queria voltar ao “local do crime”, mas que agora — crendo que o eleitor é otário — exalta seu “ex-inimigo” rebaixando-se a uma posição ridícula no vale-tudo pelo poder.

É assim que maus políticos se perpetuam no poder, prometendo as mesmas coisas, mas fazendo de tudo para que os problemas continuem existindo. A seca no Nordeste tem sido utilizada para eleger os mesmos candidatos há décadas. E, embora prometam acabar com o problema, não há nenhuma intenção de fazê-lo, afinal, como se elegerão no próximo pleito? O mesmo acontece com a fome, a miséria, a violência, os péssimos serviços públicos que somos obrigados a pagar, a roubalheira generalizada e tudo mais que serve de argumento para um sem-fim de promessas que jamais serão cumpridas.

De forma inédita, o Brasil tem agora uma oposição real que, não à toa, tem sido massacrada por todos os demais grupos políticos que estavam acostumados com seu teatrinho. Vimos um governo que, ao contrário de seus antecessores, finalizou obras importantes que passavam de um governo para o outro, custando muitas vezes mais do que o previsto, enchendo os bolsos de poucos às custas dos impostos de todos. Nos últimos quatro anos, vimos o início de reformas fundamentais — como a tributária e a da Previdência —, crescemos mais do que a China, pela primeira vez em 42 anos — mesmo com pandemia e guerra — e não houve escândalos de corrupção como vimos em governos anteriores. Enquanto boa parte do mundo sofre com inflação em alta e emprego em baixa, o Brasil tem deflação e pleno emprego.

Porém, ainda que estes sejam fatos, a grande mídia — acostumada a receber verbas gordas, pagas com o dinheiro do contribuinte — resolveu jogar contra, criando narrativas falaciosas e trabalhando fortemente em prol do “quanto pior, melhor”. Seria esse apoio ao teatro das tesouras uma forma de fazer com que as coisas voltem a ser como sempre foram e a torneira do dinheiro fácil venha jorrar novamente?

Apesar do desespero daqueles que não querem que sua estratégia seja revelada, esse teatro está mais exposto do que nunca. Mas só consegue enxergar que esses grupos não passam de lâminas da mesma tesoura quem observa objetivamente o que os candidatos fazem e não apenas o que falam. A verdadeira mudança em um país tão afundado em corrupção como o nosso exige tempo e perseverança, enquanto cabe aos corruptos batalharem para que isso não aconteça. Está nas nossas mãos o poder de sinalizar nas urnas qual Brasil queremos ter.
 

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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